"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Exupéry, Roterdã e a infância

Publicado em literatura por Mario Feitosa

Quando crianças, nosso maior sonho é ver o tempo voar e finalmente nos tornarmos adultos. Ah, se soubéssemos, naquele tempo, o que significa ser criança...

Um mergulho no entendimento da infância pelas mentes de Antoine de Saint-Exupéry e Erasmo de Roterdã e a reflexão sobre o que ela tem para nos ensinar.



"Todos sabem que a infância é a idade mais alegre e agradável", afirma Erasmo de Roterdã, em "O Elogio à Loucura". Continua: "Ao ver esses pequenos inocentes, até um inimigo se enternece e os socorre". 

Quê há no mundo de mais adorável que uma criança? E entre todas as crianças, quem, na história da literatura, foi mais adorável que o pequeno garoto de olhos brilhantes e traje engraçado, pintado por Antoine de Saint-Exupéry, em busca de um carneiro? 

Há quem diga que crianças são "pequenos adultos bêbados". Afirmação incrivelmente espirituosa e acertada. Afinal, quê são "adultos bêbados" senão seres inexplicavelmente divertidos, sem muralhas de pudor, sem "juízo"?! 

Dada a afirmação, que tal promover a atividade mais própria da criança, a brincadeira, traçando um paralelo absurdo de três pontos entre a criatura tenra e suave, de mãos e pés pequenos, olhos curiosos e brilhantes, alma pura, transbordando inocência, e as quase tão adoráveis quanto obras de Antoine de Saint-Exupéry, "O Pequeno Príncipe", e Erasmo de Roterdã, "O Elogio à Loucura"? Vamos lá? 

O Pequeno Príncipe, livreto ilustrado de Exupéry, conta a história de um piloto de avião que, enfrentando a luta pela vida ou morte, num acidente no deserto, se depara com uma misteriosa pessoinha de outro mundo, a qual, em momentos apaixonados e apaixonantes, lhe ensina as máximas de uma vida verdadeira: inocência, oposta à malícia que nos é tão própria; sinceridade, à qual nosso respeito humano nos pede ignorância, em bizarras convenções insalubres; a amizade, ou amor sincero, tão alheios ao comércio-de-tudo ao qual estamos impostos; à responsabilidade, que combate nosso usual e tão devastador egoísmo. Uma pérola! Pequena, leve, linda... Obra que caberia ser revisitada uma ou mais vezes ao ano, para remover as cracas encrustadas pela vida adulta, e reavivar a criança interior. 

Tem seu ápice na fabulosa (e que me perdoe o leitor pelo abuso da equivocidade do termo) máxima da raposa: "Te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas", talvez uma das máximas universais mais exploradas ao longo dos anos, de uma profundidade ímpar. Caberiam infindáveis parágrafos de discurso para expressar todas as nuanças da afirmação, mas não seria esse o caso.


Ilustração de Antoine de Saint-Exupéry para capa de sua obra "O Pequeno Príncipe"

De outro lado, o genial rolo-compressor ético de Erasmo de Roterdã, "O Elogio à Loucura". Peça fluída, de humor sagaz e audacioso. Veste de atrevido vestido vermelho, de ampla fenda e decote sobejo, a deusa Moria, a sandice, a entrega desregrada do homem à incontinência desmedida, a doação ao prazer e estultícia, ignorando qualquer meditação profunda, a qual, aos olhos dele, franze as testas dos homens, os envelhece e os faz intragáveis. De uma maneira pitoresca e, talvez, irresponsável, Erasmo (e repare na intimidade) motiva o homem a abandonar a filosofia, o pudor, toda forma de prudência, e a dedicar-se à incontinência das paixões, num tempo de homens austeros, com muita coisa a dizer, mas que, no contexto, provavelmente, ninguém quisesse ouvir. 

Me atrevo a catalogar "O Elogio à Loucura" como a Bíblia para os desajustados, que tanto sofrem pela desaprovação social. Banhada no leite da poética mitologia grega, puxando ao riso e ao verme da consciência em cada sentença, mais que motivar ao abandono da razão, busca, convidando à tal incontinência (abominada por Aristóteles, em "Ética a Nicômaco"), questionar quanto deve o homem ignorar seu caráter animal, que corresponde a pelo menos metade de sua natureza, em troca da elevação intelectual. 

Que lindo o trecho no qual se dedica a imaginar o mundo livre do alfabeto, onde cada qual vive sua vida sem fortes preceitos senão suas necessidades, uma espécie de anarquia intelectual. E quanto condena, na progressão da peça, o desejo dos sábios de tornarem-se mais do que caberia à frágil humanidade, forçando uma transcendência impossível, e se amargando no processo. 

Mas, estendendo demais simplórios resumos das peças, que devem ser consumidas e não imaginadas, cabe retornar ao tema, sua visão de infância. 

Roterdã, enquanto convida à desistência do pudor e da aceitação das convenções sociais, volta os olhos à infância, sem ética construída, profunda sinceridade, livre das barreiras do "cabe ou não cabe ser dito", chama os pequenos humanos de "sem juízo", e oferta a essa falta da meditação do certo e errado seu maior e mais forte caractere de amabilidade.



Agora, ignorando os dois mestres, para traçar a última linha, quê são crianças senão espíritos livres? Livres das tais convenções sociais que nos privam das anteditas máximas da vida verdadeira, verdadeiramente saudáveis. Aos adultos não é adequada a alegria, porque alegria e destemperança andam de mãos dadas, e destemperança agride os preceitos morais alheios. Sinceridade? Quê haveria de ser isso senão uma forma de rudeza, que move a ferir egos?! Amizade?! Amor sincero?! Invenções de boêmios poetas que precisam justificar ao mundo sua falta de modéstia na expressão, uma vez que se doam à noite e ao vinho, ao prazer, pensando-se adolescentes quando já deviam ter abraçado a seriedade que é cabida aos maduros. 

Já às crianças tudo soa divertido, adequado, livre das cruéis métricas que a nós são aplicadas. 

Vaza, inconsciente e involuntariamente, uma profunda inveja do estado pueril, por não poder dividir com eles a livração dos extensos julgamentos de inadequação e loucura, e rótulos de desajuste e necessidade de ajuda. Mas que tipo de ajuda precisaria alguém que deseja do fundo do coração se assemelhar ao ser que, no mundo, mais próximo está da perfeição, e todos querem abraçar e ter por perto, pela formosura estampada nas bolas dos olhos livres de malícia, princípio e autora de toda monstruosidade? 

Houve, no passado, um velho sábio que, segundo dizem, nem chegou a ser tão velho de idade, mas envelheceu por sabedoria (como explicava o mesmo Roterdã) que andava a pés descalços, cantando que o certo era o amor gratuito. Dizem que o mataram, com furos nos membros e no peito, porque o mundo não precisava ouvir o que ele tinha a dizer. Segundo quem ouviu, ele ensinou que quem não fosse tal criança jamais haveria de ser verdadeiramente feliz, provavelmente sabendo que quem perde a meninice, além de perder a graça em si, perde o potencial à verdadeira vida. 

A vida adulta tem lá seus encantos. Talvez sejam eles o tabaco, o álcool, o prazer do sexo, a pompa dos títulos de Senhor e Senhora, ainda que não se saiba exatamente do quê, os carros, empregos, salários dos quais se gabar... Coisas que às crianças não cabem. Mas a elas cabem os jogos, fantasias, brinquedos, amizades desinteressadas, ainda que com amigos imaginários, os quais nem é possível saber se são, de fato, fruto de imaginação ou comunicação real com criaturas sublimes, as quais, como adultos, não seriamos capazes de ver, por termos perdido a inocência. 

Quais são as responsabilidades de um adulto, que os consomem? Contas, e casa, e casamento, e trabalho, e memorando, e mais trabalho, e mais contas, e reuniões, e celulares, e mais contas, seguidas de mais trabalho, relatórios e cálculos. E se paro para enumerar as cabidas ao infante? Meu deus, é aqui que morro de inveja: o brincar, e sonhar acordado, e aprender enquanto brinca, e o sonhar enquanto aprende, e o comer para dormir e, descansado, poder brincar, para voltar a sonhar e aprender. É suposto que a felicidade reinará! E, felizes, como ninguém mais, serão ainda mais adoráveis que suas formas físicas.


E, aqui, começa o traçado do bizarro paralelo entre os pontos anteditos, da verdadeira vida de Exupéry, da falta de juízo, de Roterdã, e da felicidade infantil desenhada pela captação da realidade: qual haveria de ser maior falta de juízo que pedir ao adulto que interrompa sua luta pela sobrevivência para desenhar um carneiro, como o fez o jovem príncipe, ao conhecer o piloto? Não são a esse ponto desajuizadas todas as crianças? E não é justamente a maluquice que permite a felicidade, como explicou Erasmo? Livres das convenções estúpidas e medíocres definidas para inflar egos alheios em amizades convenientes, gozando da liberdade dos problemas que advém de tais convenções, encarando o mundo com os olhos que têm, e vestindo os óculos da imaginação, que fazem do sol ainda mais amarelo e brilhante, das árvores ainda mais verdes e vivas, do céu ainda mais azul e repleto de animais de algodão, as crianças constroem o mundo que os adultos sempre quiseram, mas, ainda querendo, não têm coragem de fazer; pois fazê-lo exigiria a ruptura das convenções. E pedir a ruptura das cruéis regras pré-estipuladas seria deixar a saudável "adultice" em troca de uma já abominável infantilidade, que não mais os "cabe". E, a troco de não receber rótulos (porque adultos vivem de rótulos) de insanidade, e manter a faixa de status (porque adultos adoram status) e seriedade, desistem do desejo, ignoram os conselhos e guardam no bolso de traz o bloquinho de notas, onde haviam desenhado um elefante dentro de uma jibóia, por medo de que pensem ser um chapéu. 

No fim do dia, cavando o fim da vida, para não parecermos loucos aos olhos dos homens, aplicamos, como regra de nossas vidas, o maior ato de estultícia (mórbida) possível, que é ignorar nossa inclinação natural mais saudável, a de, entre reunião e relatório, entregar-nos à verdadeira vida, de sentimentos sinceros e desmedidos.



Se ouvíssemos Exupéry, que nos contou quão responsáveis somos pelo que cativamos, ou Roterdã, que gritou que quanto mais loucos fôssemos, e menos prudentes, mais felizes seríamos, imitaríamos as crianças que, na complexidade do mais simples, vivem verdadeiramente. 

Desejo ser criança para sempre. Gostaria que houvessem mais crianças adultas para brincar a vida comigo. 

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